Enzo Bianchi e o silêncio

05-09-2013 19:10

 

Enzo Bianchi, monge de importante intervenção ecuménica, um dos nomes centrais da vida italiana, decidiu trocar Turim (onde se licenciou em Economia e foi professor liceal) por Bose, uma espécie de terra de ninguém, onde viveu os dois primeiros anos em total solidão, dizendo, mais tarde, que tudo o que sabe aprendeu nesse tempo. Ou que tudo o que sabe do amor aprendeu do fogo da lareira que tinha de manter continuamente aceso, mesmo ocupando-se de outras coisas.

 

Em Bose acabaram por se lhe juntar outros companheiros surgindo uma Comunidade Monástica constituída, hoje, por mais de oitenta monges e mongas. Vêm de todo o lado: da vida universitária, do mundo empresarial, do operariado.

 

Em Bose, como nos diz José Tolentino Mendonça, a qualidade do visível e do invisível são uma só. “Nada é de plástico, tudo é veemente como uma profissão de fé ou uma confissão de amor.” As vinte e quatro horas do dia são divididas por três: oito de oração, oito de trabalho e oito de descanso. Às vinte horas, os sinos tocam para o “grande silêncio” que deve perdurar até às seis horas da manhã.

 

Silêncio... Diz-nos Enzo Bianchi: "Só o silêncio torna possível a escuta, isto é, a acolhida em si não apenas da palavra pronunciada, mas também da presença daquele que fala. O silêncio é linguagem de amor, de profundidade, de presença ao outro. Além disso, na experiência amorosa, o silêncio é, muitas vezes, linguagem mais eloquente, intensa e comunicativa do que as palavras.

(...)

Precisamos de silêncio! Não se trata simplesmente de abster-se de falar ou da ausência de ruídos, mas sim do silêncio interior, aquela dimensão que nos restitui a nós mesmos, nos coloca no plano do ser, diante do essencial. "No silêncio, é inerente um maravilhoso poder de observação, de esclarecimento, de concentração sobre as coisas essenciais" (Dietrich Bonhoeffer).

 

O silêncio é guardião da interioridade, já que nos conduz de uma dimensão primária e "negativa" de sobriedade, disciplina no falar ou mesmo de abstenção de palavras, a um nível mais profundo, de intensa vida espiritual: isto é, de silenciar os pensamentos, as imagens, as rebeliões, os julgamentos, as murmurações que nascem no coração. É o difícil silêncio interior, aquele que encontra o seu próprio âmbito vital no coração, lugar da luta espiritual. Mas justamente esse silêncio profundo gera a atenção, a acolhida, a empatia com relação ao outro.

 

O silêncio, evento de profundidade e de unificação, torna o corpo eloquente, levando-nos a habitar o nosso corpo, a alimentar a nossa vida interior, guiando-nos para aquele habitare secum tão precioso para a tradição monástica como para a filosófica. O corpo habitado pelo silêncio torna-se revelação da pessoa inteira.

 

Tentemos, então, encontrar no ritmo da nossa vida um tempo para ouvir o silêncio: conseguiremos captar os esforços realizados para criá-lo e cuidá-lo, discernir os sons imperceptíveis da presença de outras criaturas ao nosso lado, compreender o não dito que habita a grande quantidade de palavras, ter inteligência do que acontece – ou seja, literalmente, a "ler dentro" dos eventos – e, finalmente, também ouvir melhor a nós mesmos e aos outros quando eles falam ao nosso coração e à nossa mente, e não só aos nossos ouvidos.”